Especificações
- 256
- páginas
- ano
- 2025
- 380 g
- isbn
- 978-65-80341-42-9
- isbn (e-book)
- 978-65-80341-43-6
Em meados do século xix, a Amazônia atraía viajantes de diferentes perfis, de nobres e milionários a naturalistas de primeiro time. A região estava no centro de uma acirrada disputa, em que atuavam o Império brasileiro, as nações que compartilhavam a floresta e países como Estados Unidos e Inglaterra.
Foi nesse contexto que o artista hispano-americano Nicolau Huascar de Vergara atravessou a região, por terra e por rio, de dezembro de 1860 a julho de 1861. No ano seguinte, publicou O Amazonas, um relato de sua viagem, no principal jornal de São Paulo, cidade onde passou a viver.
Em O Amazonas, os limites entre ficção e relato verídico são muitas vezes borrados, e o relato traz muitas perguntas ainda sem resposta: por que o narrador empreendeu a viagem? Aonde pretendia chegar? Qual seu ponto de partida? Por outro lado, o texto traz referências geográficas precisas. Graças a elas, é possível refazer o percurso da viagem de mais de 4 500 quilômetros desde algum lugar na cordilheira dos Andes até Belém do Pará, atravessando povoações ribeirinhas, rios e matas em trilhas abertas pelos indígenas.
Huascar de Vergara não era naturalista, militar ou comerciante. É conhecido sobretudo por sua atuação como ilustrador, caricaturista, pintor e cenógrafo. Sua narrativa — até hoje praticamente esquecida — não vê os indígenas como inferiores. Com isso, opera uma mudança de foco curiosa e pouco comum naqueles anos de grande força do discurso racial de fins do século xix.
Desde os primeiros relatos de viagem pela Amazônia, a região encanta e seduz, com suas riquezas conhecidas, potenciais e também imaginadas. Ler o relato de Huascar de Vergara é uma viagem ao passado da floresta e traz a possibilidade de contar a história de um lugar que tem sido objeto de disputa internacional há séculos e que hoje, mais do que nunca, está no centro das discussões sobre a preservação da vida no planeta.
Nicolau Huascar de Vergara (1838?-1886) foi pintor, caricaturista e cenógrafo. Ilustrou revistas e jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Heloisa Barbuy é professora dos programas de pós-graduação em história social e em museologia da Universidade de São Paulo.
Leticia Squeff é professora do Departamento de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo.
Trecho
Estarei no Amazonas?!
A lua havia permanecido no céu como para conduzir-me até esse rio… onde entramos às nove horas da noite.
Estávamos no meio, e a não ser esse último e débil raio de luz, que até nós chegou como uma dolorosa despedida, ter-me-ia julgado no oceano!
Ao longe divisava eu uma facha azulada e circular, que se perdia no horizonte…; eram as altas montanhas, que orgulhosas se levantam às margens daquele rio.
Poucos minutos depois ficou tudo sepultado na mais desesperadora escuridão. Exausto de fadiga, quis dormir. Esperança vã!
O sobressalto me perseguia; mil pensamentos sinistros me atormentavam! Parecia que esse último resplendor da lua, que até nós chegara, era a tocha de algum mau gênio, que tendo-a nas mãos, nos alumiava para conduzir-nos a uma morte inevitável.
Nunca a solidão me infundira tanto terror! Nunca a natureza me parecera tão terrível! Alguma cousa extraordinária ia dar-se porque um silêncio sepulcral reinava por toda a parte.


























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