Guerra do Paraguai|Memórias

Memória das memórias das Destinadas

Marta Garcia | Editorial

Depois do lançamento de Jovita Alves Feitosa: voluntária da pátria, voluntária da morte, em maio de 2019, o diálogo com o historiador José Murilo de Carvalho continuou intenso. Entre outras ideias que ele trouxe para a Chão estava o impressionante relato de Dorothée Duprat de Lasserre, que registrou sua experiência como prisioneira de guerra de Francisco Solano López durante a Guerra do Paraguai. Depois de ter o pai, o marido e o irmão sequestrados e assassinados pelo ditador, ela foi obrigada a caminhar pelo interior do país ao longo do ano de 1869 junto com outras mulheres, todas nas mesmas condições degradantes. A esse grupo foi dado o nome de destinadas. Trata-se do único relato escrito por uma mulher durante a Guerra do Paraguai. Poucas pessoas no Brasil sabem da existência, durante a guerra, desses campos de concentração itinerantes de mulheres.

Apesar de não se tratar do relato de uma brasileira, mas de francesa residente no Paraguai, o Brasil estava diretamente envolvido no conflito e foi o responsável pela libertação de Dorothée. O texto, datado do início de 1870, foi escrito no calor da hora, logo após a libertação da prisioneira, a pedido do coronel brasileiro Francisco Pinheiro Guimarães.

O texto a que inicialmente tivemos acesso era a cópia digital de uma tradução, publicada em livro em 1893, enviada por José Murilo de Carvalho. Ele não estava seguro sobre a língua em que o relato original fora escrito, se francês ou espanhol. Aprovamos imediatamente, impactadas ao descobrir mais uma faceta terrível e pouco conhecida da guerra. José Murilo começou a pesquisa em busca dos originais. Veio a pandemia, e os arquivos fecharam. Embora prefira pesquisar pessoalmente, ainda assim José Murilo conseguiu localizar duas cópias manuscritas do original, uma no Itamaraty, outra no Museu Imperial. O relato havia sido escrito em espanhol, afinal. Ele descobriu também uma carta manuscrita do dr. Rebaudi ao conde d’Eu, de 1920, relembrando o episódio do resgate e dando notícias do destino de Dorothée.

Em meio a uma intensa troca de e-mails, José Murilo propôs que o projeto fosse tocado em parceria com o historiador Ricardo Henrique Salles, professor da Unirio, estudioso da Guerra do Paraguai e conhecido seu de longa data. Ricardo aceitou de bom grado, sentindo-se honrado com o convite de José Murilo. Mas, pouco depois, acabou impossibilitado de prosseguir, por motivos de saúde — ele acabou falecendo em 2021. José Murilo sentiu muito o ocorrido, mas continuou o trabalho, não sem lamentar a dificuldade em fazer a pesquisa em arquivos paraguaios e em conseguir contato com algum estudioso paraguaio da guerra.

Nessa mesma época, tomamos conhecimento, por intermédio do documentário Guerras do Brasil.doc, do trabalho do pesquisador paraguaio Guido Alcalá. Após conversarmos com José Murilo, fomos em busca do livro de Alcalá: Residentas, destinadas y traidoras, que, aparentemente, trazia comentários sobre o relato de Dorothée, além do próprio relato. Começou então um interminável périplo em busca do livro e do autor: internet, editora paraguaia, sebo argentino. Nada resultou. Então, contatamos Francisco Doratioto, o maior especialista em Guerra do Paraguai em atividade — seu livro Maldita guerra é já um clássico e foi recentemente reeditado —, em busca de informações sobre o livro de Alcalá. Doratioto prontamente respondeu, com enorme boa vontade: sim, ele tinha o livro de Alcalá, mas guardado na casa de sua mãe, no interior de São Paulo. Logo que a visitasse, enviaria o livro a José Murilo de Carvalho. Os dois passaram a se comunicar.

Em meados de 2021, já não podendo contar com a parceria de Salles e com as dificuldades impostas pela pandemia no acesso a arquivos, José Murilo afinal sugeriu que a pesquisa fosse assumida por Doratioto, caso ele concordasse. José Murilo entrou em contato com ele e fez o convite. Para alegria geral, Doratioto aceitou, ainda que estivesse envolvido em outras pesquisas, já não relacionadas à Guerra do Paraguai. De acordo com ele, o convite era “tentador”, e ele então mergulhou no projeto de corpo e alma. As Memórias de Dorothée Duprat de Lasserre nasceram assim, com a bênção de dois dos maiores historiadores brasileiros em atividade.

Após uma busca intensa e entusiasmada em arquivos argentinos, paraguaios e brasileiros, Doratioto descobriu fatos até então desconhecidos sobre o destino de Dorothée: afinal, o que havia acontecido a ela depois da guerra? Descobriu também imagens raras. E escreveu um posfácio impecável, unindo contextualização histórica altamente informativa e pesquisa sobre a surpreendente história de vida de Dorothée, que começa como tragédia e termina mostrando a capacidade de resiliência e superação dessa mulher.

Ao cotejar as cópias dos manuscritos em espanhol, idênticas, e a tradução publicada em 1893, Doratioto descobriu também que essa edição havia feito muitas adaptações ao texto original. Resolvemos então transcrever o manuscrito e providenciar uma tradução, inédita, perfeitamente fiel ao original.

As Memórias de Dorothée Duprat de Lasserre, que a Chão lançará em setembro, narram os infortúnios dessas destinadas, mulheres a quem foi imposto que caminhassem, sob escolta de soldados, para o interior do Paraguai, no sentido inverso ao avanço das tropas aliadas. Famintas, adoecidas e maltrapilhas, foram libertadas pelo Exército imperial brasileiro em dezembro de 1869, já no final do conflito.

Dorothée, mulher ativa e preparada intelectualmente, aceitou o desafio de escrever suas memórias, depoimento de uma mulher que não só assistiu à violência do conflito armado, mas viveu na pele o arbítrio da ditadura de Francisco Solano López. Seu relato joga luz na pouco conhecida experiência de privação e sofrimento imposto às mulheres paraguaias durante a Guerra do Paraguai.

Foto: Dorothée Duprat, em foto feita provavelmente na década de 1880

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