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O caderno de Venancia: memórias

Venancia da Silva Vieira

Posfácio:
Noemi Jaffe

Especificações

328
páginas
ano
2026
430 g
isbn
978-65-80341-48-1
LANÇAMENTO: 14 DE SETEMBRO DE 2026

“Foi tudo assim como está aqui, foi verdade, tudo verdade.” É com essa afirmação que Venancia da Silva Vieira inicia o registro de suas memórias, em 1955, em um caderno cuidadosamente manuscrito. Nele, a autora, que frequentou a escola por apenas quatro anos, reconstrói sua infância e juventude — do nascimento, em 1924, ao casamento, em 1945. Os episódios narrados são marcados pela pobreza, por relações familiares conturbadas, pelo trabalho precoce e pelas migrações constantes entre os estados de Minas Gerais e Paraná.

Ao longo do caderno, surgem cenas do cotidiano na roça, do trabalho como empregada doméstica ainda criança, das privações materiais e da convivência familiar. A relação com a mãe, caracterizada por cuidado e violência, e o vínculo com o pai, figura de escuta e proteção, estruturam parte central da narrativa. O fantasma da fome, da doença e da morte, e a disciplina rígida dos costumes compõem o retrato de uma vida moldada pela necessidade.

Mas o drama da desigualdade social e econômica nunca é abstrato nem teórico. É real e individual, e carrega uma camada subjetiva que, talvez, só a literatura possa considerar integralmente. E é justamente por essa razão que as memórias de Venancia não devem ser lidas apenas de um ponto de vista sociológico. Trata-se, “de verdade”, de literatura. Um texto em que o trabalho com a linguagem e com o estilo é tão valoroso quanto os temas que aborda.

A escrita de Venancia alia, de forma única e, em certa medida, misteriosa, recursos literários sofisticados — ritmo, pontuação, sintaxe e construção de frase — a erros ortográficos elementares. Essa combinação é, em parte, um dos motivos pelos quais o leitor reconhece um teor de “verdade” e de “originalidade” no livro. Não somente pelo fato de os assim chamados “erros” serem marcas de sua classe social, mas porque, amalgamados a preocupações estilísticas, criam uma atmosfera de surpresa permanente. Como se as frustrações da vida difícil da autora, bastante claras no final, fossem finalmente compensadas pela forma como ela conta e escreve sua história.

Para os interessados nos originais do caderno, o fac-símile do manuscrito estará disponível no site da editora. Assim o leitor poderá ter contato com todas as particularidades do estilo de Venancia.

Venancia da Silva Vieira (1924-2020) teve a infância marcada pela pobreza e trabalhou como babá, empregada doméstica e professora de alfabetização.

Noemi Jaffe é escritora, professora de literatura e de escrita e crítica literária. Publicou diversos livros.

Trecho

Quando eu ia aprender a mandar em mim mesma? fazer a minha própria vontade? Desde que meu pai se foi eu virei como uma tonta e boba nas mãos dos parentes, e sabem porque? Eu era mulher, eu era moça e ser moça aquele tempo era muito perigoso. Era preciso se casar emediatamente para se livrar do perigo. E o maior perigo era a língua do povo. Eu era um joguete nas mãos dos outros. Eu queria ser livre, ter a minha vida, eu queria fazer o que o meu coração me pedia. Eu queria estudar, aprender uma profissão, tratar de mim mesma etc. Mas para minha mãe e o costume era, o fim de uma moça era o casamento.

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