Luis Campagnoli
Na coleção Os Presidentes, publicada na década de 1980 e hoje facilmente encontrada aos maços por dez reais o volume em tudo que é sebo, o autor Hélio Silva, no nono livro, assim começa sua descrição de Wenceslau Braz, alterando a grafia do nome: “Venceslau Brás Pereira Gomes era um mineiro típico, confinado em sua terra natal, Itajubá, em cujo rio tranquilo gostava de pescar”.
Se vamos ler o Esboço de sua vida política, que o próprio Wenceslau Braz escreveu em forma memorialista provavelmente na década de 1940, como devemos lê-lo? Como história de pescador? Bom, sendo sua intenção, como diz logo no primeiro parágrafo, transmitir seu relato apenas a seus descendentes, e não publicá-lo, podemos afrouxar a desconfiança e seguir leitura. Mas, ainda assim, é afinal ele que diz isso. Que vale a palavra do pescador, do político? Na verdade vale muito, pois ela muitas vezes informa até o que não pretendia informar. A omissão, por exemplo, quando desvelada, é um silêncio de mais estardalhaço que a simples exposição dos fatos. Algo tem aí, pensamos, se o autor fez questão de omiti-los.
A edição do Esboço que a Chão agora publica (a despeito do desejo do autor, mas com aval e vontade da família) inclui posfácio, cronologia da vida de Wenceslau Braz — que nasceu em 26 de fevereiro de 1868 e morreu em 15 de maio de 1966, tendo sido presidente do Brasil entre 1914 e 1918 — e notas, tudo a cargo do historiador Francisco Alambert.
Numa das notas, ele mostra que Wenceslau Braz omite feitos marcantes, e violentos, da carreira política do coronel que convidou para ser o equivalente ao que se tem hoje como ministro da Defesa. Em vez de mencionar a participação do militar na derrubada da Monarquia em prol da República ou no golpe de 1930 que alçou Getúlio Vargas ao poder, prefere narrar o convite ao coronel e sua posterior promoção ao generalato, louvando-lhe em exagero a moral. No posfácio, Alambert destaca uma história contada na parte final do Esboço:
“Nessa narrativa exemplar, Wenceslau eclipsa muitas das grandes questões históricas e disputas políticas do período, mas, ao mesmo tempo, certamente sem se dar conta, descreve o passo a passo da política de compadrio, favorecimento e concentração de poder que marcou todo o período da Primeira República.”
A narrativa que Alambert comenta é a de quando Wenceslau Braz era ainda um estudante de direito em São Paulo e viajou pela primeira vez, junto com seu primo Delfim Moreira, para o Rio de Janeiro. Lá assistiu a uma récita da atriz francesa Sarah Bernhardt, no Theatro São Pedro, que ficava na praça Tiradentes, no Centro, e hoje não existe mais. Maravilhou-se com a cidade e entusiasmou-se ao identificar d. Pedro ii numa das tribunas do teatro. O entusiasmo foi tanto que, quando o imperador percorreu a plateia com um binóculo, na fantasia de Wenceslau Braz ele se deteve por um instante em sua pessoa, como se notasse ali um futuro presidente do Brasil.
Outro jovem que, no Rio de Janeiro do Segundo Reinado, fantasiou ser o centro das atenções de d. Pedro ii foi o personagem Bentinho, de Machado de Assis, antes de se tornar casmurro. Sentado ao lado de José Dias, o agregado da família Santiago, dentro de um ônibus que precisou interromper o trajeto para o imperador passar, o garoto imaginou Pedro ii batendo à porta de sua casa, ordenando a dona Glória, sua mãe, que não o metesse no seminário e que assim poderia namorar Capitu. A fantasia de Bentinho, claro, não se tornou realidade, e só mais tarde ele se safou dos estudos para padre, indo estudar direito em São Paulo, aliás, na mesma faculdade que formou Wenceslau Braz. A diferença entre um e outro é que a fantasia de Wenceslau Braz acabou por se cumprir. Ele se tornou, como ele mesmo registra, colega do imperador, chefe do Estado brasileiro. Uma das curiosidades do registro e da história toda é como o republicano não economiza sua admiração pelo monarca.
Além do traço laudatório, que como se pode perceber era muito presente em Wenceslau Braz, outro é o da modéstia. No Esboço, há uma dezena de trechos em que ele relata postos políticos aos quais não quis se candidatar, muito menos tomar posse, por vezes alegando não ser a pessoa mais competente para a função. A repetição causa estranheza. Pois, vamos lá, como pode alguém, sem querer, ocupar em cerca de vinte anos os postos de deputado estadual, secretário do Interior, deputado federal, líder da bancada mineira, líder interino da Câmara Federal, presidente (governador) do estado de Minas Gerais, vice-presidente da República e, por fim, presidente da República? Ninguém simplesmente tropeça em cargos dessa importância. Quem, porém, tem na mocidade premonições de sucesso ao dividir recinto com o imperador do Brasil e, mais tarde, confessa que foi “político, muito político desde [os] doze anos”, completando que já nessa idade “estava a par, tanto quanto possível, da política brasileira”, pode mesmo atingir tão altos ofícios.
Após narrar diversas picuinhas do jogo político; sua posição favorável à obrigatoriedade da vacina contra a varíola, quando, em 1904, parte do povo se recusava a tomá-la; a Primeira Guerra Mundial, na qual como presidente foi praticamente obrigado a sair da neutralidade e opor-se à Alemanha; a gripe espanhola que grassou no Brasil durante seu mandato presidencial, entre outros casos, Wenceslau Braz retrocede no tempo para contar, de maneira contida, embora engraçadíssima, a primeira causa cível em que atuou como advogado formado. Aproveitando a fama de burro que o advogado da parte oposta tinha, Wenceslau Braz resolveu inventar um livro inexistente das Ordenações filipinas e proferir citações só para reproduzir, ao absurdo, erros que o outro cometia. Pela audácia, a audiência quase terminou em pancadaria, e o juiz, aconselhado a chamar à ordem o tribunal, retorquiu dizendo que… não se meteria, porque depois as partes fariam as pazes e quem sairia errado seria somente ele. Puro suco, ou chorume, de Brasil.
Ao fim, Wenceslau Braz também narra sua vida após deixar a política. Mais ou menos. Porque, mesmo retirado em Itajubá com suas pescarias, envolveu-se em alguns acontecimentos do país, como quando foi a Belo Horizonte por ocasião do golpe de Estado que em 1930 tirou Washington Luiz do poder. Também em 1937, logo depois do golpe do Estado Novo, encontrou-se com Getúlio Vargas e, de novo com graça, confidenciou-lhe, brincando com o ditado popular, que, na serra da Mantiqueira, plantava batatas. “Depois de seu golpe, presidente”, disse ele, “depois que o senhor nos mandou plantar batatas, eu, mestre consumado dessa cultura, tenho me oferecido aos ex-políticos para ensinar-lhes de graça esse plantio”, ao que Vargas respondeu com uma gargalhada.
“Ao vencedor, as batatas” é a frase que outro personagem de Machado de Assis, Quincas Borbas, usa para fechar a explanação de uma de suas filosofias; e que é repetida por Rubião, espécie de aprendiz do filósofo. O argumento, de propósito, gera confusão. Parece razão e desvario ao mesmo tempo. Basicamente, expõe que uma fonte de alimento deve ser, em vez de dividida em cooperação, disputada até a morte, para defender que assim caminha a humanidade, que a morte faz parte do princípio da vida etc.
Outra nota no Esboço traz uma citação de João do Rio em que o cronista sugere publicamente a Wenceslau Braz a retirada do retrato de Machado de Assis que o presidente tem num de seus aposentos. A crítica de João do Rio é que faltava a Wenceslau Braz “a modéstia silenciosa e a ironia discreta” do Bruxo do Cosme Velho. Ora. O modesto político-pescador, que acompanhamos em suas memórias, teve de lidar com ataques como esse. Se retirou o retrato ou não, não ficamos sabendo.
Foto: Mercado Municipal de Itajubá, inaugurado em 1884 e demolido em 1953