Memórias

A escrita como desobediência

André Gravatá

Logo no início d’O caderno de Venancia, há um trecho que aponta a intensidade que se desdobrará em cada página: “Escrevi tudo com muita emoção, muita saudade, muito sentimento e muito boa vontade.” 

Essa repetição da palavra muito não é à toa.

O livro tem muita vida em cada página.

Muita intimidade. Muita recordação. Muita dor. Muita coragem.

Essas memórias foram escritas entre 1955 e 1965, e abordam desde o nascimento até o casamento de Venancia da Silva Vieira, aos 21 anos. Recordar é para ela um gesto vital: “Dizem que saudade é sofrimento,/ dizem que recordar é sofrer./ Eu não concordo não, pois o/ recordar me faz viver”.

A escrita de Venancia faz viver. Muito visceral é a forma como ela nos conta da queimadura que sofreu na mão enquanto preparava sabão de cinzas num tacho. Muito contundente é também a forma de Venancia narrar os fatos que foram se encadeando até chegar ao casamento que ela não queria que acontecesse — alguma coisa dizia para ela que não devia casar nunca.

“Eu só sabia trabalhar, obedecer, obedecer, agradar e agradar”, relembra Venancia numa das anotações que ela escreveu verticalmente nas páginas — e não posso deixar de destacar a edição primorosa deste livro, que respeitou a inventividade e a singularidade da voz de Venancia. Mesmo quando ela se lamenta por ter obedecido tanto, submetida às violências que tantas mulheres brasileiras infelizmente também conhecem, seu ato de escrever acontece como desobediência que retrata a realidade crua de uma mulher com aguda capacidade de ler o mundo. 

Se fosse pelos outros, ela ficaria todo o tempo cuidando, limpando, servindo. Ao escrever, ela afirmou a própria vontade. Afirmou um tempo dela. Numa vida em que tantas escolhas cruciais eram feitas por outras pessoas, a escrita era uma escolha de Venancia. 

Eis mais um trecho do caderno:

“Como eu gostava dos meus, mas eu queria ser eu. Afinal eu não nasci grudada em ninguém, porque mandar em mim, gente que na minha opinião não sabia mandar nem em si mesmo.”

Ao expor a infância e a adolescência de uma mulher branca de família pobre, nascida em Minas Gerais, que viveu muitas migrações entre seu estado natal e o Paraná, O caderno de Venancia nos leva a um ponto imprescindível: a importância da escola. E olha que ela só frequentou o ensino formal por quatro entrecortados anos. Imagine quantas mulheres da época de Venancia teriam destinos totalmente diferentes se tivessem tido o direito de estudar, aprender a ler e a escrever? 

Fico imaginando as noites em que Venancia estava diante dos seus cadernos, a caneta na mão, o silêncio ao redor e ao mesmo tempo o corpo tomado pelo barulho da enxurrada de tantas memórias. Dias e dias na roça. Dias e dias como empregada doméstica. Noites olhando curiosa para o céu. Imagino o momento em que ela emprestou um dos cadernos para a sobrinha, exatamente este que a Chão Editora está publicando. E aquele outro dia em que Venancia queimou todos os outros cadernos. A sua voz, com tanto ritmo… Muita voz em cada caderno sendo devorada pelas chamas… Ela demonstra ter uma intuição tão aguçada. Será que Venancia sentia que o único caderno salvo pelas mãos da sobrinha viraria livro depois da sua morte? 

Do jeito que Venancia era certeira, talvez tenha pressentido até que eu escreveria este texto. 

Assim como ela se dirige diretamente a algumas pessoas mencionadas no caderno, aproveito para falar aqui com a autora:

Dona Venancia, peço licença para escrever algumas palavras que a encontrem. Queria tanto ter conhecido a senhora para ouvir mais as suas palavras. A senhora disse que queimou os outros cadernos porque sua vida não teria interesse para ninguém. Posso dizer que para mim sua história interessou e muito. Gostaria de encontrá-la para dizer os porquês de tanto interesse.

Um dos motivos é que teimo em ver a relação entre escrita e liberdade. E a senhora me ensinou muito sobre isso. E mais, muito mais… Cheguei a ler alguns trechos do seu livro para minha mãe, que é migrante baiana hoje vivendo em São Paulo, nunca frequentou uma escola mas sempre quis contar a própria história. E minha mãe disse que a senhora “escreve nitidamente”. E completou: “Eu sei de tanta coisa estilo isso. Mas sair contando a história assim em linha reta é difícil”. Sim, minha mãe também se interessou muito por sua história!

Se eu pudesse encontrá-la, Dona Venancia, presentearia a senhora com cadernos. O caderno como um símbolo da desobediência. Da liberdade em meio a tanto sofrer. Símbolo de fartura. 

A escritora Noemi Jaffe fala no posfácio do seu livro como a senhora descreve com fartura a fartura que encontrou na casa dos seus avós maternos. E fartura é uma palavra precisa para falar da sua escrita. 

A fartura do seu caderno não pode ser contada em páginas e linhas, vai além. 

Fiquei curioso demais para escutar suas histórias da época em que alfabetizou crianças. Com sua sensibilidade apurada, certamente a senhora teria muito a contar sobre como revelar a língua para os pequenos. 

Ah, como eu gostaria de ler seus poemas! Saber mais sobre sua vontade de ser pintora!

Já sinto saudades da senhora.

Um abraço,

do seu leitor,

andré gravatá

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